A Superação Espiritual do Trauma
A espiritualidade não desfaz o trauma, mas
pode transformar seus efeitos sobre nossa existência.
Estou em uma fase da vida em que os
acontecimentos — sejam tristes ou alegres — tocam profundamente a minha alma e
me inspiram a compartilhar meus sentimentos com meus semelhantes, na esperança
de que os ensinamentos que emergem dessas vivências possam contribuir para
orientar suas jornadas existenciais.
Hoje, um fato nos convida à reflexão
sobre o estágio ainda rude em que se encontra a humanidade. Uma pessoa boa,
amorosa e sensível, tocada pela aparente dificuldade de alguém mais fragilizada
em escolher um produto num supermercado, envolveu-se em um gesto genuíno de
solidariedade, sem perceber que estava sendo vítima de uma armadilha criminosa.
O que começou como um ato de compaixão transformou-se, subitamente, em aflição.
Ao chegar ao caixa, constatou que sua carteira havia sido furtada justamente por
aquela pessoa a quem procurou ajudar.
Além do trauma e de suas nefastas
consequências, o fato revelou também a frieza do sistema. Apesar dos mecanismos
de segurança existentes no supermercado, nada foi feito de imediato para
socorrer a vítima e apurar os autores do delito, explicitando, mais uma vez, a
complacência da engrenagem social com o crime. À vítima restou o peso das
providências: registrar ocorrência, bloquear contas, alterar senhas e,
posteriormente, enfrentar uma possível batalha jurídica para minimizar seus
prejuízos, enquanto os responsáveis, na maioria das vezes, seguem impunes,
perpetuando seus atos.
Situações como essa, que se repetem
diariamente, atingem pessoas que nem sempre dispõem de condições emocionais,
financeiras ou estruturais para lutar por seus direitos. Surge, então, a
pergunta inevitável: como encontrar forças para superar uma realidade em que, à
primeira vista, o bem parece ser vencido pelo mal?
Talvez não exista resposta que satisfaça
a todos. No plano estritamente material, muitas circunstâncias parecem
demonstrar que o crime compensa. Quando esse nível de compreensão se mostra
insuficiente, resta-nos recorrer a uma dimensão mais profunda: a espiritual. É
nela que podemos encontrar recursos para ressignificar a dor e vislumbrar
interpretações que escapam ao alcance limitado do olhar material.
Esse fato fez-me recordar um ensinamento
deixado por meu saudoso e sábio pai. Certa vez, um homem — caixa de banco —, em
desespero por uma diferença em seu caixa e abandonado por todos a quem
recorreu, procurou ajuda em nossa casa, sem qualquer vínculo conosco.
Sensibilizado, meu pai decidiu acolhê-lo e ajudá-lo, apesar das incertezas.
Minha mãe, ao tomar conhecimento da
decisão, ponderou com lucidez sobre os riscos: tratava-se de um desconhecido,
possivelmente responsável pelo próprio problema, e que poderia não honrar o
compromisso. Ainda assim, meu pai respondeu com uma lógica que transcendia o
cálculo material. Afirmou que aquele homem, naquela condição, não encontraria
mais ninguém disposto a ajudá-lo. E acrescentou: se não o ajudasse, os filhos
daquele homem poderiam passar fome; mas, se o ajudasse e saísse prejudicado,
confiava que Deus não permitiria que seus próprios filhos passassem
necessidade.
Funcionário
do Banco do Brasil e pai de 14 filhos, sem folga financeira para tal gesto, ele
tomou um empréstimo para socorrer aquele homem. O sucesso dessa iniciativa foi
parcial: o beneficiado superou sua crise e sua família não passou fome, mas não
conseguiu honrar integralmente o compromisso, causando um prejuízo financeiro a
meu pai, que conseguiu superá-lo sem comprometer a assistência integral aos
seus filhos, os quais, mais tarde, se tornaram profissionais bem-sucedidos e
respeitados na sociedade sergipana.
Diante desse exemplo familiar, não
precisei recorrer a textos sagrados para compreender que os valores espirituais
são soberanos sobre os materiais. O essencial é mantermos sintonia com nossa
essência espiritual, para que possamos observar as dores e as injustiças do
mundo material a partir de uma perspectiva mais elevada.
Essa compreensão não significa afirmar
que o mal tenha sido vencido ou que a injustiça deixou de existir. Tampouco
elimina a necessidade de buscarmos justiça e de lutarmos pelo aperfeiçoamento das
instituições responsáveis pela proteção da sociedade, porque o trauma foi real,
provocou sofrimento e pode deixar marcas profundas na vida da pessoa atingida.
Nestas situações, o verdadeiro desafio
consiste em evitar que um episódio doloroso marque negativamente nossa
trajetória de vida. A melhor forma de enfrentá-lo é ampliar nosso olhar a
partir de uma perspectiva espiritualista. Assim, percebemos que, apesar da
violência sofrida e do sofrimento experimentado, permaneceu preservado o bem
maior: a capacidade de prosseguir na concretização do nosso projeto de vida. É
dessa certeza que brota a força para superar o trauma, reconhecendo que depois
do incidente, continuaram presentes as condições essenciais para seguir
adiante, como a saúde, a família, a possibilidade de honrar os próprios
compromissos e de reparar prejuízos materiais.
Essa
visão nos permite acreditar que uma força superior nos guia e sustenta, mesmo
em meio às adversidades, ainda que pareça não se manifestar segundo os
critérios imediatistas da lógica humana. O que nos parece incongruente no
presente pode estar inserido em uma ordem maior, cuja compreensão muitas vezes
ultrapassa os limites da nossa percepção. A espiritualidade, assim, não apaga a
dor nem modifica os fatos, mas transforma a maneira de vivê-los. É essa mudança
de perspectiva que nos fortalece para seguir adiante, preservando a serenidade,
a esperança e o compromisso com a construção de um mundo mais justo, fraterno e
solidário.
Dr. Luiz Hermínio de Aguiar Oliveira
