quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

A Superação Espiritual do Trauma

A espiritualidade não desfaz o trauma, mas pode transformar seus efeitos sobre nossa existência.

 

Estou em uma fase da vida em que os acontecimentos — sejam tristes ou alegres — tocam profundamente a minha alma e me inspiram a compartilhar meus sentimentos com meus semelhantes, na esperança de que os ensinamentos que emergem dessas vivências possam contribuir para orientar suas jornadas existenciais.

Hoje, um fato nos convida à reflexão sobre o estágio ainda rude em que se encontra a humanidade. Uma pessoa boa, amorosa e sensível, tocada pela aparente dificuldade de alguém mais fragilizada em escolher um produto num supermercado, envolveu-se em um gesto genuíno de solidariedade, sem perceber que estava sendo vítima de uma armadilha criminosa. O que começou como um ato de compaixão transformou-se, subitamente, em aflição. Ao chegar ao caixa, constatou que sua carteira havia sido furtada justamente por aquela pessoa a quem procurou ajudar.

Além do trauma e de suas nefastas consequências, o fato revelou também a frieza do sistema. Apesar dos mecanismos de segurança existentes no supermercado, nada foi feito de imediato para socorrer a vítima e apurar os autores do delito, explicitando, mais uma vez, a complacência da engrenagem social com o crime. À vítima restou o peso das providências: registrar ocorrência, bloquear contas, alterar senhas e, posteriormente, enfrentar uma possível batalha jurídica para minimizar seus prejuízos, enquanto os responsáveis, na maioria das vezes, seguem impunes, perpetuando seus atos.

Situações como essa, que se repetem diariamente, atingem pessoas que nem sempre dispõem de condições emocionais, financeiras ou estruturais para lutar por seus direitos. Surge, então, a pergunta inevitável: como encontrar forças para superar uma realidade em que, à primeira vista, o bem parece ser vencido pelo mal?

Talvez não exista resposta que satisfaça a todos. No plano estritamente material, muitas circunstâncias parecem demonstrar que o crime compensa. Quando esse nível de compreensão se mostra insuficiente, resta-nos recorrer a uma dimensão mais profunda: a espiritual. É nela que podemos encontrar recursos para ressignificar a dor e vislumbrar interpretações que escapam ao alcance limitado do olhar material.

Esse fato fez-me recordar um ensinamento deixado por meu saudoso e sábio pai. Certa vez, um homem — caixa de banco —, em desespero por uma diferença em seu caixa e abandonado por todos a quem recorreu, procurou ajuda em nossa casa, sem qualquer vínculo conosco. Sensibilizado, meu pai decidiu acolhê-lo e ajudá-lo, apesar das incertezas.

Minha mãe, ao tomar conhecimento da decisão, ponderou com lucidez sobre os riscos: tratava-se de um desconhecido, possivelmente responsável pelo próprio problema, e que poderia não honrar o compromisso. Ainda assim, meu pai respondeu com uma lógica que transcendia o cálculo material. Afirmou que aquele homem, naquela condição, não encontraria mais ninguém disposto a ajudá-lo. E acrescentou: se não o ajudasse, os filhos daquele homem poderiam passar fome; mas, se o ajudasse e saísse prejudicado, confiava que Deus não permitiria que seus próprios filhos passassem necessidade.

Funcionário do Banco do Brasil e pai de 14 filhos, sem folga financeira para tal gesto, ele tomou um empréstimo para socorrer aquele homem. O sucesso dessa iniciativa foi parcial: o beneficiado superou sua crise e sua família não passou fome, mas não conseguiu honrar integralmente o compromisso, causando um prejuízo financeiro a meu pai, que conseguiu superá-lo sem comprometer a assistência integral aos seus filhos, os quais, mais tarde, se tornaram profissionais bem-sucedidos e respeitados na sociedade sergipana.

Diante desse exemplo familiar, não precisei recorrer a textos sagrados para compreender que os valores espirituais são soberanos sobre os materiais. O essencial é mantermos sintonia com nossa essência espiritual, para que possamos observar as dores e as injustiças do mundo material a partir de uma perspectiva mais elevada.

Essa compreensão não significa afirmar que o mal tenha sido vencido ou que a injustiça deixou de existir. Tampouco elimina a necessidade de buscarmos justiça e de lutarmos pelo aperfeiçoamento das instituições responsáveis pela proteção da sociedade, porque o trauma foi real, provocou sofrimento e pode deixar marcas profundas na vida da pessoa atingida.

Nestas situações, o verdadeiro desafio consiste em evitar que um episódio doloroso marque negativamente nossa trajetória de vida. A melhor forma de enfrentá-lo é ampliar nosso olhar a partir de uma perspectiva espiritualista. Assim, percebemos que, apesar da violência sofrida e do sofrimento experimentado, permaneceu preservado o bem maior: a capacidade de prosseguir na concretização do nosso projeto de vida. É dessa certeza que brota a força para superar o trauma, reconhecendo que depois do incidente, continuaram presentes as condições essenciais para seguir adiante, como a saúde, a família, a possibilidade de honrar os próprios compromissos e de reparar prejuízos materiais.

Essa visão nos permite acreditar que uma força superior nos guia e sustenta, mesmo em meio às adversidades, ainda que pareça não se manifestar segundo os critérios imediatistas da lógica humana. O que nos parece incongruente no presente pode estar inserido em uma ordem maior, cuja compreensão muitas vezes ultrapassa os limites da nossa percepção. A espiritualidade, assim, não apaga a dor nem modifica os fatos, mas transforma a maneira de vivê-los. É essa mudança de perspectiva que nos fortalece para seguir adiante, preservando a serenidade, a esperança e o compromisso com a construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário.

                                      Dr. Luiz Hermínio de Aguiar Oliveira